sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

TEIDE 0-4, Anatomia de uma Aventura

Naquela 5ª feira, 19 de Janeiro de 2012, o Calcorreando meteu pés ao caminho, ou melhor dizendo, asas, já que usamos o avião para dar um pulinho àquela ilha Africana do arquipélago das Canárias que dá pelo nome de Tenerife (“Tene” significava “montanha” e “ife” branca, já o “r” foi adicionado pelos Espanhóis).

A ideia (que tinha sido ventilada há já uns tempitos atrás pelo Carlos Rodrigues) era a de se fazer uma ascensão “à homem”, ou seja, subir o Teide, que tem qualquer coisa como 3.718m de altitude, partindo da praia, algo como ir da cota 0 à cota 3.718… e numa só etapa ;-)

Inicialmente pensei que não iria conseguir juntar muitos interessados em partir para esta aventura, ainda para mais que eu estava limitado na minha disponibilidade e o Carlos não tinha disponibilidade, para o fazer nesta altura. Mas estava errado e, para além do Manuel António, montanheiro que me acompanhou ao Almanzor, logo apareceram mais 5 amigos que desde o jantar no Talasnal, na última caminhada na Serra da Lousã, ficaram com a pulga atrás da orelha e não resistiram à possibilidade de virem experimentar a sensação de estar no pico deste vulcão!

Como é obvio, para uma etapa com quase 4000m de desnível, é necessário estar bem, física e mentalmente, já que se por um lado será despendido um grande esforço físico para vencer a distância e altitude, por outro é necessária uma boa dose de mentalização que nos ajude a realizar uma boa parte da etapa em condições nocturnas e, por isso, com maior probabilidade de incidentes, dadas as condições do local e localização do trilho, em grande parte do trajecto fora de zonas de acesso público regular!

Por esse motivo e apesar da experiência de alguns dos amigos que me iriam acompanhar, e também para não me deixar levar por um qualquer impulsos de auto-confiança, optei por realizar dois testes, um em Valongo e outro no Gerês, de modo a verificar como estávamos de capacidade física em termos de velocidade e resistência! Se o primeiro treino, nos corta-fogos das Serras de Santa Justa e Pias, se destinou a testar a nossa resistência a um desnível acumulado feito com grandes pendentes, já o segundo treino, no Gerês, entre a Vila e o Borrageiro, se destinou a evidenciar aos participantes as dificuldades que poderiam sentir quer fisicamente, já que a pendente média estaria acima da realizada, quer mentalmente, já que teriam de percorrer com aquele nível de dificuldade uma distância muito superior…

Apesar de não ter podido realizar uma aferição no primeiro treino, já que a época natalícia condicionou a participação, foi possível no trilho do Gerês chegar-se à conclusão, creio que por unanimidade que, à data, só dois estariam em condições físicas de realizar o percurso nestas condições e no tempo que seria exigível, ou seja, num máximo de 16h de modo a alcançar o pico até ao pôr-do-sol, para quem saísse da praia, sendo que os restantes fariam a aproximação pelo Trilho da Montanha Branca.

Assim que estes preceitos foram definidos fizeram-se os últimos acertos no programa, definiram-se estratégias e reuniram-se os “Teidistas”, em casa da Lúcia, para o “estágio” final de preparação ;-)

Chegando à data de partida as ansiedades multiplicam-se já que o tempo disponível, quer para a realização do trajecto, quer para a estadia no local, estava bastante limitado e por isso era grande a vontade de que tudo corresse pelo melhor e que houvesse o menor número possível de incidentes! De qualquer modo à hora de partida lá estavam, o Francisco, a Lúcia, o Manuel Antº, a Marília, a Mariana e a Sofia, todos prontos, no aeroporto e com tudo em ordem… isto depois de umas transferências de malas abertas, algo que é corrente ver-se nas filas de check-in da Ryanair :-D

O avião, que sabia da nossa preocupação em chegar ao destino o quanto antes, até que se portou bem e chegou antes da hora prevista, já a tramitação na empresa de rent-a-car, jantar e viagem até ao outro lado da ilha, foi bem mais demorada, o que acabou por atrasar um pouco a chegada ao ponto de início e consequentemente a hora de partida!

Estávamos já no dia 20 de Janeiro de 2012 quando chegamos à Praia do Socorro, um local no lado norte (noroeste) da ilha, a poucos quilómetros da cidade de Puerto de la Cruz.

Entre os que se equipavam e os que não se equipavam, lá se iam fazendo as despedidas de boa sorte e tirando as fotos da praxe, de quem molha ali o seu pezinho, ou melhor, a botarrona! Ali ficaria o grupo separado, entre os que abalavam monte arriba e os que seguiriam prá cidade pra descansar umas horitas antes de, também eles, partirem rumo ao local de início do outro trilho!!! No entanto este descanso ficaria um pouco comprometido já que entre saltos na água e fotos de pé molhado a chave do “coche” resolveu ir tomar banho e foi preciso uma onda de sorte prá recuperar :D mas isso foi coisa que os dois aventureiros só souberam no dia seguinte pois a sua marcha rumo ao cume já havia iniciado ;-)

Eram cerca de 1h30m em Tenerife (e também em Portugal) quando saímos da areia da praia e começamos a nossa ascensão.

Desde início que o trilho apresenta uma acentuada pendente, muito embora nesta fase facilitada pelo facto de se fazer no alcatrão, ainda que por pouco tempo. À medida que se subia e víamos as luzes da estrada ficarem para baixo, sentia que estávamos a subir bem e rápido, já a visão das luzes lá no alto a indicar a presença de algumas casas numa cota bastante superior, não indiciava nenhuma redução da pendente, pelo menos até lá chegarmos.

Algo que me preocupara nos últimos dias, logo me assaltou neste inicio de etapa, o Calima, um vento que traz partículas de areia do Sahara e que já constava nas previsões meteorológicas. Isto porque mal começámos a subida a partir da estrada principal e já na escuridão dos caminhos que seguíamos era bem visível a enorme quantidade de partículas que a luz do frontal interceptava, as quais também, pouco depois, se sentiam já na respiração obrigando-nos a optar pela inspiração nasal, o que não é o mais confortável quando se está com passo rápido ;-)

Depois de uma parte inicial por caminhos empedrados, que faziam a ligação entre as povoações, e depois de sairmos de El Lance, já perto da cota dos 700m, entramos numa zona de trilho em terra batida, sem que, no entanto, a inclinação se tivesse reduzido, tendo mesmo aumentado nalguns troços! Um pouco mais à frente, além de inclinado, o trilho apresentava-se enlameado o que dificultava ainda mais a progressão. Foi precisamente numa destas rampas que, apoiando mal a bota, esta me escorregou uns bons 20cms a mais do que o desejável, para me dar um esticãozito num músculo qualquer, ali para os lados da virilha esquerda, que me ficaria a doer durante uma grande parte da ascensão, e que também me obrigou a reduzir a velocidade!

Nesta parte da etapa, totalmente nocturna e sem lua, em que só víamos o que o frontal nos deixasse ver, caminhávamos tanto por estradão como por trilhos no meio da vegetação, mas sempre com grande pendente que não nos deixava relaxar certos músculos. No meio desta escuridão só de tempos a tempos assomávamos a locais com menos vegetação, ou com uma qualquer clareira à esquerda, onde conseguíamos contemplar a encosta da Orotava e, aí sim, ver todas as luzes do vale que demarcavam estradas e acesso a urbanizações e casas isoladas!

Seria por perto da cota dos 1.000m que se encontraria a única fonte de toda a etapa do trajecto praia-pico, a Fuente de Pedro, mas a fonte (se a fonte era aquele tubo de pvc junto ao solo, partido em várias zonas) não nos inspirou grande confiança e decidimos contar apenas com a água que transportávamos connosco.

Os quilómetros iam ficando para trás, mas esta etapa estava ainda no início, as horas passavam, mas o nosso ritmo era bom e rapidamente conseguimos recuperar e alcançar os pontos de passagem (que havia definido numa simulação feita em casa), com tempos inferiores aos equivalentes a uma eventual saída, da praia, antes da 1h00. Por isso, e apesar de algumas dores em certos músculos das pernas que começavam a surgir muito por culpa da constante pendente elevada dos trilhos e do ritmo impresso desde o arranque, continuávamos bastante confiantes!

A lua só nos apareceu, por entre as arvores, por volta da cota dos 1.800m, mas logo deu para motivo de fotos e de conversa. Nesta altura, e apesar dos cerca de 15kms já calcorreados, a pendente continuava forte. Este facto desgastava-nos um pouco... olhávamos em frente e, derivado da escuridão, sentíamos a ausência de céu estrelado, até olharmos bem para cima, o que significava uma encosta bem prolongada ainda à nossa frente. Sabia que só por volta da cota dos 2.000m é que chegaríamos a uma zona de plataforma que nos permitiria descansar um pouco, no entanto, sentíamo-nos em forma e com força suficiente para continuar com aquele ritmo, bastando-me controlar a velocidade de modo a que a dor da virilha e as dores das pernas se mantivessem suaves e estáveis.

Nestas altitudes o trilho apresentou-se-nos com mais algumas dificuldade, por um lado, o pó, que por aqui era tanto que não sei se o que andava no ar seria do Calima, do chão (levantado pelo vento), ou de ambos! Por outro lado, também o frio era muito! Tirando a parte inicial em que as temperaturas estiveram perto dos 20ºc (junto ao mar), a partir duma cota próxima dos 400-600m, começamos a sentir arrefecimento sendo que por estas altitudes já apanhámos frio, e bastante frio para um céu tão limpo e tão seco! Provavelmente o facto de estarmos tão perto do mar e em Janeiro condicionasse a sensação térmica, já que sentíamos mais frio aqui do que o que sentíramos em Gredos (a uma cota superior e com queda de neve)!!!

Finalmente lá chegamos à cota dos 2.000m e, um pouco à frente num pequeno desvio de alguns metros, paramos numa espécie de miradouro, donde aproveitámos para contemplar, uma vez mais, a visão nocturna da ilha. A contemplar mas não por muito tempo que quando parávamos... gelávamos! ;-)

Por aqui, ainda que subindo, a inclinação da pendente ia decrescendo consideravelmente e cerca de um quilómetro mais adiante… finalmente, a capela. Esta capela indicava-me que acabara a subida e que a seguir teríamos uma inflexão de pendente, para além de indicar também que nos encontrávamos perto da boca da enorme caldeira que molda a paisagem da ilha.

Estávamos a precisar de parar um bocado e como a única hipótese era num local abrigado, decidi-me a “forçar” a abertura da porta (pêrra pela falta de uso e, muito provavelmente, também pelo frio) da pequeníssima capela para nos recolhermos lá dentro, sentados nuns baldes que por lá deixaram ficar!

Eram cerca de 7h20, ou seja, cerca de 6h após a nossa saída da praia - cota 0 – e estávamos nos 2.100m de altitude e a num ponto de transição, quer na paisagem, quer nas condições da caminhada, uma vez que faltava apenas cerca de meia hora para o nascer do dia! Decidimos, por isso, fazer uma pausa maior, cerca de 20 minutos, de modo a sair daquele local já com mais alguma luz, para se poder ver mais qualquer coisa e também para se poderem tirar as primeiras fotos com o Teide, o qual já estava visível, mas ainda não era fotografável ;-)

Finalmente uma experiência nova, descer em Tenerife! Tirando aquela descida de alguns degraus para ir ao ponto de partida na praia, esta 1ª parte da etapa é uma enorme e contínua subida!!! Só aqui ao entrar na caldeira se encontra a primeira, e única, descida de todo o trajecto praia-pico. Estamos também num ponto de cruzamento com os vários trilhos que ligam o Centro de Visitantes e o Trilho da Montanha Branca, à designada “Fortaleza”, que não é mais do que parte da antiga caldeira que não se desmoronou como aconteceu na zona que hoje forma a encosta/vale da Orotava, e no limite do qual se fez toda a ascensão anterior.

O dia começa a surgir e estamos já a caminhar no fundo da caldeira quando os primeiros raios de sol começam a iluminar o pico do Teide!!! Durante alguns momentos parámos para tirar umas fotos e filmar um pouco da invasão de luz sobre o pico da montanha.

Continuamos a caminhar por entre uma vegetação rasteira e muito parca, por onde se notava um manto branco mas muito dissimulado que indicava que ali a noite fora mesmo fria. Procurámos um local mais aberto onde já incidissem os raios solares para fazer uma nova paragem e observar a envolvente, já que nos encontrávamos numa antiga e monumental caldeira com uma “fortaleza” pelas costas e um pico de quase 2.000m pela frente!!!

Nesta pausa, já com aquecimento natural, aproveitámos para tomar o pequeno-almoço, pois já estaria na hora dele, uma vez que já passaria das 8h30! Mas algo não correu bem com este pequeno almoço, já que pouco tempo depois, numa zona plana como a que vínhamos atravessando, com uma cota ligeiramente superior aos 2.000m mas bastante inferior aos cerca de 2.100m de cota da capela onde se concluíra a ascensão, comecei a sentir uma má disposição num misto de tonturas e enjoo que me obrigou a reduzir o passo... passado pouco tempo depois, a indisposição já era tanta que tive mesmo de parar! Nesta altura, já o Manuel Antº ia bem à frente sem perceber se eu ficara para trás a tirar fotos ou no wc, até que, passado algum tempo e estranhando tanta ausência, veio atrás verificar o que se estava a passar!

Ali estava eu, parado, num estado de agonia, à espera que as entranhas se me acalmassem um pouco, enquanto ia pensando no que poderia estar a acontecer! Seria algo que comera?! Não estava a ver nada que pudesse fazer aquele efeito, embora, entre a barra de cereais (que não havia experimentado antes), a sande (de paté, queijo e fiambre que já era habitual no menu doutras caminhadas) ou o sumo (dum novo concentrado de frutos vermelhos que também não tinha experimentado antes), havia muitas suspeitas!!! Seria o mal das alturas?! Também não descartava esta hipótese, muito embora o facto de a indisposição me ter dado a uma cota de 2.000m precisamente após uma descida de altitude e com baixo ritmo de progressão, me parecesse ser essa uma causa algo improvável... De qualquer modo, a prudência levou-me a ingerir um anti-ácido e também uma aspirina, para atacar a eventualidade, quer de um mal de estômago, quer um mal de altitude, com as “balas” que tinha, anti-ácido para o primeiro e aspirina para o segundo! Como não houve qualquer efeito imediato do anti-ácido, aumentou a preocupação... mas havia que seguir, pois já estava parado há demasiado tempo pró meu gosto!!! ;-)

A progressão seguia por terreno relativamente plano, mas fazia-se de forma penosa, devido à indisposição! Era preciso caminhar… por outro lado as pernas estavam bem, sem sinais de fadiga, as dores musculares haviam desaparecido e mesmo a dor na virilha já mal se sentia! Por isso, a caminhada prosseguiu, comigo mais ou menos enjoado, progredindo com lentidão e intercalando-se mais paragens do que o inicialmente previsto!

Calcorreamos por paisagens de tufos de ervas, areias e rocha vulcânica desagregada até que surgiram os primeiros “Ovos do Teide”, designação que deram a umas negras rochas magmáticas que se espalharam no fundo da caldeira do primitivo vulcão, numa das erupções posteriores à formação desta gigantesca caldeira! Após nos depararmos com os primeiros exemplares destes “ovos”, o trilho sobe um pouco mais, com uma pendente mais acentuada, para se juntar, primeiro, ao trilho que vem do centro de visitantes, e depois, ao trilho dito da montanha branca, o qual, deveria trazer ao nosso encontro os amigos que deixáramos, há pouco mais de 8h, na praia do socorro e que deveriam já estar a percorrer este trilho, o qual tem início num estacionamento localizado nas proximidades do acesso inferior ao teleférico!

Altura para mais uma paragem, desta vez na presença de outros montanheiros, ou seja gente, algo que já não víamos desde a nossa partida, na praia! Tentámos, embora sem sucesso, o contacto via rádio, pois eram cerca das 10h da manhã, precisamente a hora que indiquei ao outro grupo como sendo a hora limite (a hora mais tarde) para darem início a este Trilho do Monte Branco, de modo a conseguirem, de acordo com os meus cálculos, chegar ao pico antes do pôr-do-sol. Ainda se tentou, mas também sem sucesso, o contacto via telemóvel! Nesta situação, sem possibilidade de contacto, prosseguimos o nosso caminho, sem saber se o outro grupo já tinha passado este ponto ou se ainda vinha a caminho e se estavam longe ou perto de nós, já que o combinado era que se os grupos não se conseguissem contactar, prosseguiriam independentes!

Esta parte comum com os outros trilhos, em que agora prosseguíamos, é feita num estradão bem largo, subindo, mas sem as pendentes dos primeiros 2000m.

Eu, lá ia, seguindo o Manuel Antº, conforme podia, com passo reduzido pois sentia-me ainda muito angustiado! Na indisposição aproveitava cada paragem para olhar em torno e recolher as imagens, daquela paisagem, da imensa caldeira que deixávamos para trás assente num manto de nuvens, bem como do imponente cone do vulcão que, ainda, tínhamos pela frente!

Um pouco mais adiante, aproximadamente na cota dos 2.700m, atingimos por fim a base do Teide, ou seja, o local onde se ergue mais abruptamente o cone do vulcão cujo pico nos aguardava, 1.000m mais acima!!!

Ora cá estávamos nós! Era agora o momento da verdade... faltava a parte pior!!!
Estávamos nós com cerca de 20kms nas pernas, mais 2.700m nos pulmões... e eu com uma indisposição como nao tinha memoria!!!... Só me apeteceu dizer uma coisa: (Palavrão-Censurado!!!)

Naquela hora tinha a cabeça em turbilhão... deveria terminar ali e desistir? Hipótese que passa e é logo afastada, tinha de estar mesmo muito mal para isso acontecer!... deveria dizer ao Manuel Antº para seguir ao seu ritmo e fazer o pico enquanto eu vejo se consigo chegar ao refugio? Como ele ainda não tinha levantado qualquer problema e ainda havia muito tempo pela frente, opto por ficar calado e deixar isso para depois!

Está na altura de prosseguir... come-se qualquer coisa, pois temos pela frente 550m de ascensão ate ao refúgio... com menos de meio litro de líquidos!... Telefone toca... era o Francisco a informar que ainda estavam a começar a sua etapa!... Hummm, muito tarde! Seriam umas 11h15 e atendendo a que alguns elementos do grupo não me pareciam na melhor forma... isto também não augurava nada de bom!!!

Meto pés ao caminho com a sensação de que vou ter de me arrastar até lá cima... um bocadinho de cada vez... faz-se os primeiros 100m (em altura), é pouco mais que a altura da Ponte D. Luis, mas já só ficam a faltar 400m pró refúgio (nestas alturas é conveniente arredondar para baixo ;-). Quando a indisposição aumenta, controla-se o ritmo e vê-se se já subimos mais 10 metritos... e se subimos 15m, ganha-se confiança... nada de elevar a fasquia quando se está em dificuldades... entretanto o altímetro passa os 2.900m e já só se pensa no objectivo de conseguir chegar aos 3.000m!!! Ver a base de partida, deste tramo, ficar lá em baixo também anima... olhar para cima e não ver vestígios de refúgio, é que não anima nada!... Queria dizer ao Manuel Antº para fazer uma paragem na cota dos 3.000m, mas como ele entretanto saíra do meu campo de visão, opto por fazer eu essa pausa, aproveitando para tirar umas fotos e contemplar aquela vista de pássaro, agora já bem acima das nuvens!!!

De volta ao trilho pouco tempo depois (que isto de ir devagar não admite paragens muito demoradas) mas já com a certeza de que pelo menos ao refúgio consigo chegar! Muito embora soubesse que o objectivo não era esse, e que a ideia era mesmo fazer o cume neste dia, os cerca de 700m ainda por vencer, pareciam monstruosos naquelas condições... ainda por cima a simples ideia de que pudesse ter de deixar o cume pró dia seguinte deixava-me... assim como que... bastante irritado com a situação! ;-)

Um pouco depois da paragem dos 3.000m, toca o telefone! Era o Manuel Antº que tinha chegado ao refúgio! Fiquei a saber que a antena que estava a ver mais acima era uma referência da localização do refúgio, pelo que já dava para ter a noção da sua proximidade... Apesar disso ainda demorei uns looongos 20min a alcançá-lo!!!

Ter o altímetro nos 3.250m e ver aquela casinha ali, fica-se logo com vontade de dar as ultimas passadas nem que seja num misto de fúria e esforço... pousa-se a mochila com alívio e bebe-se o ultimo gole de agua como que a antever uma barrigada reconfortante, ali dentro, com uma caminha ou pelo menos um banquinho para deitar e esticar os músculos...

- Tá Fechado!!!... diz o Manuel Antº
- Como é que "Tá Fechado"?!!!... Mas que raio de abrigo é este?!!!

Há que inspeccionar... ver o gradeamento... que não dá para abrir!... Dizer uns palavrões, e tocar na campaínha, num misto de insulto a algo indefinido com uma resignação do tipo "deixa lá ver se isto serve para alguma coisa"... a verdade é que serviu, nem que fosse só para acordar o guarda do refúgio que disse não perceber porque é que a grade exterior estava fechada!

Finalmente conseguíamos entrar no refúgio! Mas nem por isso as coisas ficavam facilitadas, pois assim que perguntei onde podia abastecer de água, o guarda responde que ali não havia água!!! Mas, mas,... como é que "Não Há Água", mas q raio de refúgio era aquele?!! pensei cá para mim... isto não se faz ao meu pobre coraçãozinho, já o tinha feito subir  mais de 3.000m duma assentada, não havia necessidade de o provocar com notícias destas :-P

Vejamos, tecnicamente, o refugio estava fechado, sim, e só abria às 17h... note-se que eu tinha chegado as 13h30 (e o Manuel Antº ainda mais cedo). Ou seja, podia-se entrar para a zona de estar que tinha uns sofás e umas máquinas de café e refrigerantes, mas não havia acesso a wcs's, dormitórios, refeitório ou cozinha, em resumo, nada de torneiras! Única solução era beber pagando... hummm cheira-me a comércio forçado!!!

Coca-cola de 33cl a 4€, água de 33cl a 3€ e café ou chocolate quente em 20cl a 2€... não é agradável, nada mesmo! Então, vir para o monte beber coca-cola, nem a brincar!... Pagar uma taxa de abastecimento d'água de 10€/Lt é algo que ainda deve demorar a acontecer, embora já tivéssemos estado mais longe desse dia!!... Por isso, optamos pelo chocolate quente que traz sempre um certo elan, digamos que, alpino ;-) e deitamo-nos ao comprido nos sofás que por agora, ainda são grátis!!!

Parámos por ali cerca de uma hora, o Manuel Antº parece que ainda aproveitou grande parte do tempo, mas eu acho que só consegui desligar durante uns 10 a 15minutos... não me sentia cansado mas a indisposição, ainda que incomodasse menos, teimava em não ir embora... por isso, e tendo em conta que poderia demorar bastante a percorrer o caminho em falta, tornava-se importante meter pés ao caminho, já que o ritmo ia continuar lento!

Como eu já não tinha água, e nenhum de nos queria pagar a "taxa" de abastecimento (é verdade… que dois forretas :-), o Manuel Antº decidiu partilhar os 300ml que lhe restavam, para podemos “atacar” o próximo objectivo, que era o de vencer o desnível de 300m que nos separava da estação superior do teleférico, à cota de 3.550m!!!

Lá fomos devagarinho, continuando a subir com o mesmo declive acentuado com que já subíramos desde a base do cone do Teide até ao refúgio, sendo que, só já na parte final, deste novo troço, é que o declive iria decrescer, para depois entrar numa zona de altos e baixos que vai desembocar na dita estação de teleférico!

Mesmo que eu quisesse esconder, o meu ritmo não deixava dúvidas acerca do que se passava cá dentro... e nesta altura já eu começava a reparar que o meu parceiro de aventura, também começava a acusar algum cansaço!

E foi ali, por perto do meio deste tramo do percurso (refúgio-teleférico), quando pouco passava das três da tarde, que recebemos noticias de alguém que vinha no outro grupo... era a Marília que por sms nos dava conta de que já chegara ao refúgio! Dizia ainda que estava bem e que ia continuar a subir, ao que eu retorqui que viesse que não tardaria em apanhar-me (estava a ser sarcástico comigo próprio, já que ela não podia perceber que o motivo era a baixa velocidade da nossa progressão e não a eventualidade de estarmos perto dela ;-). Isto enquanto estávamos nós em mais uma daquelas paragens, pouco técnicas, de observação paisagística e de... contrição ;)

Finalmente, por volta das 16h15, chegámos à estação de teleférico... e como a nossa bebida já era, a primeira coisa que fizemos foi procurar uma torneira! Ainda pensei que pudesse haver um bar ou algo do género, mas a única coisa que encontrámos foi um edifício térreo, ao lado (mas separado) da estação de teleférico, apenas com wc's... desta vez já ninguém se pôs a indagar da qualidade da água... foi entrar e encher a garrafita, que isto de ser esquisito com o espectro químico-bacteriológico do líquido é para citadinos! ;-) e depois podia ser que, caso a coisa desse pro torto, me endireitasse as entranhas :-D

Aproveitamos para fazer uma nova paragem neste local, agora também para recuperar forças e temperatura (que o vento não estava nada meigo). Também procurei indagar se haveria teleférico no dia seguinte (dúvida que me surgiu pela mesma razão - o vento forte), já que podia ser necessário no caso de se querer voltar ao cume na manhã seguinte para ver o nascer do sol (isto se fosse para cumprir à risca o plano inicial, pois da maneira que me sentia, tinha já perdido a vontade de voltar a fazer aquela subida na madrugada seguinte). De qualquer modo o teleférico também podia vir a ser útil caso houvesse quem não conseguisse alcançar o cume antes do dia acabar, embora neste caso houvesse o problema dos "Permissos" que só eram válidos para o corrente dia e só para o período entre as 15h e as 17h

Depois de dadas todas estas voltas e já perto das 16h30 dirigimo-nos à portinhola de acesso ao tramo final do trilho, que nos levaria ao pico do teide e, onde supostamente deverão fazer o controlo de acessos! Supostamente, já que ninguém nos disse nada e como a cancela não tinha fecho foi abrir e seguir caminho!

Mal começávamos esta ascensão final, logo avistámos alguém com um casaco cor-de-rosa, bem vistoso, que inicialmente descia e pouco depois parava como que a observar-nos! Não demorei muito a perceber que era a Marília, tinha passado por nós enquanto estávamos na zona do teleférico e não tinha parado, convicta de que já estaríamos mais acima! Como já tinha feito um pouco daquele trajecto sem nos encontrar, e não lhe parecera seguro subir nas condições de vento que ali encontrou, preparava-se para descer quando nos viu iniciar aquela subida!

Efectivamente o vento era forte a ponto de nos poder desequilibrar e o trilho muito exposto em certos troços mais virados para nordeste... quando estávamos na zona do teleférico cheguei mesmo a recear que não nos deixassem subir, tal era a ventania que se sentia/ouvia, o único pró é que o teleférico estava em funcionamento e como dizia o funcionário, “se o vento não piorar, amanhã haverá teleférico”! Por este motivo a minha convicção era q a situação requeria muito cuidado mas não justificava que se abortasse a incursão ao cume, e por isso lá fomos, deitados contra o vento ou agarrados a um murête lateral, sempre q a força do vento ameaçava varrer-nos para fora do trilho... ah, e parando de vez em quando que a minha indisposição, apesar de ter aliviado um pouco, não tinha voado com o vento… com muita pena minha!!! Por outro lado, tínhamos ali a Marília a fazer-nos companhia na parte final, cheia de ânimo e força, o que de certa forma também nos animava/ajudava a terminar a etapa!

Devido à forma do cone do vulcão nesta zona e também por não haver uma definição do ponto de pico (falta lá um marco tipo espigão ou algo do género), apenas nos apercebemos que estamos a chegar quando aparecem algumas correntes a formar um corrimão… e que no caso, muito jeito nos deram, para fazer os metros finais... e para tirar algumas fotos de brincadeiras de quem parece que está a ser arrastado pelo vento ;-)

Cerca das 17h30, e aproximadamente 16h depois de deixar o mar, a tão desejada meta, estava ali à nossa frente, finalmente! Só parei quando tive a certeza que os meus olhos estavam bem acima de qualquer ponto do cume deste vulcão que nos elevara aos 3.718m, acima do nível do mar... havíamos conseguido ultrapassar um desnível com a magnitude daquela cota, percorrendo quase 30kms de distância, em tão somente… uma única etapa!!! Sem dúvida algo para recordar :-)

Continua...

domingo, 25 de dezembro de 2011

Actividades Realizadas em 2011


Por ordem cronológica:


24 de Dezembro - Serra de Santa Justa e Pias - Trilho dos Corta-Fogos

09 a 11 de Dezembro - Serra de Gredos - Pico Almanzor (2.592m)

26 de Novembro - Serra da Lousã - Brama de Veados e Aldeias de Xisto

19 de Novembro - Mini-Caminhada pelos Fojos de Valongo

29 de Outubro a 01 de Novembro - Parque Natural de Somiedo (Asturias)
... Actividade 1 - Pico Cornón (2.194m)
... Actividade 2 - Lagos de Somiedo
... Actividade 3 - Las Médulas (El Bierzo - León)

15 de Outubro - Serra do Gerês - Arado » Prado Teixeira » Prado Rocalva » Rio Conho

05 de Outubro - Serra d' Arga - Trilho do Rio Âncora (Org: CAOS)

01 de Outubro - Serra de S. Macário - Covas do Rio » Aldeia da Pena » S. Macário

17 de Setembro - Serra da Cabreira - Trilho Postigo da Candosa (Org: Andarilhum)

27 de Agosto - Serra da Boneca - Alto da Boneca e Poço Negro do Rio Mau (Org: CAOS)

21 de Agosto - Serra da Freita/Arada - Pelo Rio Teixeira até ao Poço Negro (Manhouce)

24 de Julho - Serra do Gerês - Trilho das Lagoas e Cascatas de Pincães

16 a 17 de Julho - Serra da Freita/Coelheira - Acampamento na Fraguinha & Drave

08 a 10 de Julho - Douro Internacional - Calcorreando pela Linha do Douro (desactivada)
... Etapa 1 - Pocinho a Barca d' Alva
... Etapa 2 - Barca d' Alva a La Frageneda

26 de Junho - Serra do Gerês - Cascata da Ermida

12 de Junho - Serra da Peneda - Trilho da Pedrada pelas Brandas de Seida e Bosgalinhas

08 de Junho - Esposende - Trilho das Azenhas do Neiva

28 de Maio - Serra do Gerês - Fafião » Bicos Altos » Rio Laço » Porto da Lage

21 e 22 de Maio - Galiza - Muiños do Folon e Picon e Acampamento em Baiona

15 de Maio - Serra do Gerês - Pico Nevosa (1.548m)

16 de Abril - Serra do Gerês - Fafião » Cabanas do Lagarinho, da Amarela e Pradolã

20 de Março - Galiza - Trilho pelo Cabo Home e Monte Facho (Vigo)

04 a 08 de Março - Caminhos de Santiago (Inglês desde O Ferrol)
... Etapa 1 - O Ferrol a Neda
... Etapa 2 - Neda a Betanzos
... Etapa 3 - Betanzos a Bruma
... Etapa 4 - Bruma a Sigüeiro
... Etapa 5 - Sigüeiro a Santiago de Compostela

20 de Fevereiro - Serra do Gerês - Trilho dos Currais (PR3)

19 de Fevereiro - Serra do Gerês - Lagoas do Marinho desde Xertelo (Org: Clube Mont. Braga)

05 de Fevereiro - Serra d' Arga - Trilho da Pedra Alçada (Caminha)

08 de Janeiro - Serra de Santa Iria - Mirar a curva do Douro em Melres

domingo, 20 de março de 2011

Celtamente do Monte Facho ao Cabo Home


Neste dia em que nos preparávamos para receber a Primavera, fomos à Galiza Celta para a receber, foi então que nos dêmos conta de que já lá estava, à nossa espera, o... Verão ;)


Num passeio de 12 kms percorridos prazenteiramente, visitamos o castro do Monte Facho, apreciámos a paisagem da sobranceira Torre de Vigia, falando sobre as ilhas e... de tudo um pouco, enquanto calcorreávamos o Cabo Home nos enredávamos nos seus "faros" e nos deliciávamos com as suas praias, fosse por um motivo... ou por outro ;)


Um Domingo muito agradável em "família" :)

terça-feira, 8 de março de 2011

5ª etapa (Sigüeiro - Compostela) - Peregrinando até Santiago de Compostela, pelo Camiño (dito) Inglês

5ª Etapa - de Sigueiro a Compostela (em 8 de Março de 2011)


8 de Março, último dia desta “peregrinação” do Ferrol a Santiago… e dia de Carnaval!
Pelos vistos não fora só eu que dormira mal, pois ao pequeno-almoço os ingleses, que foram meus vizinhos de piso, também se queixaram do ruído!

O meu jantar de ontem, acabara por se fazer no quarto com alguns artigos comprados num supermercado, perto e na mesma rua do hostal. Como tal o pequeno-almoço fizera-se também no quarto, com o que sobrara e que tinha sido comprado já a pensar nisso, por isso, havia que fazer ali a despedida dos ingleses que já não voltaria a encontrar.

À saída de Sigueiro, tudo muito calmo por ser feriado, Carnaval. Tempo de ressentir o cansaço… talvez acumulado dos dias anteriores, talvez resultado da noite mal dormida. Por um lado, estivera até tarde a transferir fotos de um telemóvel, que já não tinha mais espaço em memória, para outro que não guardava a informação de quando a foto havia sido tirada, o que me obrigou a perder mais tempo a criar notas com a informação que iria precisar mais tarde, pra saber donde tirara as fotos. Por outro lado, o desconforto da cama e das alergias que adiaram a hora de passagem ao estado oficial de adormecido!

Ah, também tempo de ressentir uma bolha, que quis dizer presente na etapa final… tipo, eu tou aqui :P

Esta primeira parte da etapa final até que parece interessante, por causa de um ou outro caminho por onde se segue, embora tal panorama não dure por muito tempo, para dar lugar a um percurso junto a una estrada nacional que mais à frente intersecta uma zona industrial que permanece durante tempo demasiado, com um apogeu, negativo, junto da FINSA, (indústria de aglomerados de madeira) com a sua densa fumarada!

Talvez por me encontrar numa das zonas menos apelativas de todo o trajecto sinta com maior intensidade a bolha a magoar… tempo de ignorar as maleitas e seguir caminho… ao som de “here i go again om my on...” literalmente…

Até ao centro de Santiago, não trouxe, esta etapa do percurso, nada mais interessante do que uma paragem num bar, ainda na zona industrial, chamado de “Polígono”, onde me ofereceram a coisa mais parecida com um bolinho de bacalhau que deverá existir em terras da realeza ibérica! Pelo menos foi agradável, terem oferecido algo de comer ao peregrino, ainda que a água de 50cl a 95cts não fosse propriamente uma pechincha, a oferta dos 2 bolinhos (de batata) e dos 2 “calamares”, ficou-lhes muito bem. :)

Não tardou muito até que estivesse às portas de Compostela! E embora o percurso e respectivas marcações estivessem um pouco baralhados, talvez pela possibilidade de se seguir diferentes trajectos, o objectivo de alcançar logo que possível a Catedral de Santiago, mote para qualquer peregrino, outrora como agora, depressa viria a ser concretizado!

Como marca da passagem dos séculos, agora que nunca como outrora, a oração na hora da chegada foi substituída pela já instituída… foto “finish” :D assim como quem não quer, mas afinal até quer, comprovar que o objectivo fora conseguido e pretendendo mais tarde recordar aquele momento… mas por mais que se diga que uma imagem vale mais que mil palavras, a verdade é que nem mil imagens podem equivaler ao momento vivido e sentido :)

Tempo para entrar na catedral de mochila às costas… fazer a ronda e procurar a oficina do peregrino onde é suposto darem a Compostela, espécie de diploma escrito em latim, onde se certifica que o seu detentor cumpriu os requisitos, ou seja apresentar uma credencial com uma data de carimbos (é bom saberem que normalmente exigem que haja pelo menos 2 carimbadelas por cada dia de percurso), e que como tal cumpriu a peregrinação de acordo com as leis eclesiásticas. Como tal às 15h00 locais (14h00 em Portugal), sou oficialmente um Peregrino!

Uma vez que a oficina do peregrino, não fica situada na catedral mas sim num edifício antigo numa das ruas que lhe são perpendiculares (mais precisamente do lado direito de quem admira a colossal fachada), regresso à mesma para o tradicional abraço ao santo… contudo o santo tinha ido almoçar :D … ou pelo menos quem o guarda, já que fecham a porta de acesso ao local por detrás da estátua e fixam o horário na porta gradeada em ferro. Assim havia que voltar às 16h00 para cumprir este ritual… já que não ia esperar pelo dia seguinte para assistir à missa do Peregrino (que se realiza todos os dias às 12h locais, para quem desejar participar tem de ter isso em conta) e apesar de mais uma vez encontrar uma porta fechada (não foi a da catedral mas foi a do santo) pelo menos ao ritual do abraço tinha de comparecer ;)

Depois de ter estado sentado, durante alguns momentos, no interior da catedral a escrever algumas destas notas, aproveitando o tempo ainda disponível para uma bebida num bar ali próximo!

Pouco depois das 16h00 entrego ao santo os Abraços de quem mos havia confiado, de entre Familiares, Amigos e “Xente no camiño”!

O meu caminho, esse iria-se prolongar ainda um pouco mais, até chegar novamente ao albergue onde me alojára na primeira noite, para um banho refrescante antes do regresso a casa…


segunda-feira, 7 de março de 2011

4ª etapa (Bruma - Sigüeiro) - Peregrinando até Santiago de Compostela, pelo Camiño (dito) Inglês

4ª Etapa - de Bruma a Sigueiro (em 7 de Março de 2011)


E nada melhor do que a bruma para saudar o amanhecer deste novo dia… em Bruma!!!

A vida de peregrino não é fácil, bem pelo menos assim fôra outrora, já que estar na rua às 8h da manhã e a tirar fotos não é propriamente o mesmo que levantar ainda de madrugada para cuidar da terra, como muitos ainda hoje o fazem, de qualquer modo, comparando com o peregrino moderno que só vem no verão, a fazer etapas curtas, comer em restaurantes e dormir em pensões, sempre faço a coisa mais autentica um bocadinho ;)

Tempo de dar uma última olhadela ao albergue e à sua envolvente também agradável com o riozinho, o parque infantil e a secular igrejinha!

Faço-me ao caminho mirando os campos e a névoa que paira sobre o riacho, sentindo os dedos gelarem, talvez para me lembrar que ainda estámos no Inverno e que por aqui as noites são mesmo frias, apesar do sol sorridente que tinha apanhado durante os dias anteriores, nesta minha peregrinação! A esta hora estava ainda muito frio! Nas bermas era bem visível a geada, o que em nada ajudava a aquecer este peregrino, o que ajudava era ele acelerar o passo, isso sim, ajudava a aquecer e muito!!!

Apesar da ruralidade desta zona, reparo que nem toda a gente saúda à passagem do peregrino, ao contrário do que já tenho experimentado enquanto montanheiro noutras zonas também rurais! Talvez essa diferença se deva ao facto de que essas zonas de montanha, normalmente se encontram em locais mais isolados do que este que apesar de rural já está muito perto duma grande cidade como o é Santiago!

Outra coisa que também reparei foi que apesar de ter visto muitos corvos, nomeadamente nesta manhã, o facto é que não me recordo de ver os correspondentes espanta-pajaros (os nossos espantalhos, ou espanta-corvos, como muito apropriadamente, no seu caso, dizem os ingleses).

Aproveito uma mesa envolta numa forma de espigueiro, junto a um verdadeiro espigueiro (ou horreo como por aqui se diz) para comer um pequeno naco de pão enquanto aprecio as estranhas esculturas(?!) que observo do outro lado da estranha feitas em metal com alguns elementos, digamos que rurais… não sei se ache kich ou ridículo ou engraçado, mas pareceram-me originais ;)

Mais à frente, aí sim uma paragem para um pequeno-almoço como deve ser… tostadas e café-con-leche… eram para aí umas onze e um quarto da manhã e encontrava-me no bar “A Rua”. Depois de ter passado mais uma igreja, fechada, aqui estava mais um local para recompor o gôto e arrecadar o carimbo! Conclusão: o peregrino moderno não deixa a esmola na igreja, deixa o contributo no comercio local para gáudio dos prazeres da carne… algo soa errado aqui, ou talvez não ;)

“Porra Bar A Rua”, não, não etsou a dizer que o bar é uma porra, é apenas o que está num cartaz que vejo afixado e que pelo resto da descrição parece relacionar-se com algo tipo torneio de futebol, sei lá… ao lado um “paisano” fala num galego enrolado de que não capto nada! Tempo de prosseguir, pago (não sei bem, mas uns 2 a 3€) e sigo viagem, cantando eu tenho 2 amores :P

Pouco depois altura de seguir por estrada rural, já sem o transito, ainda que pouco, da anterior e passar por uma ponte onde parei um pouco em telefonemas pois tinha de tratar dum assunto pendente e ligar pró banco que hoje é segunda-feira.

Um pouco mais à frente cruzo-me com um casal de ingleses no caminho... Atendendo a que foram poucos os peregrinos que encontrei no caminho, o facto de ter encontrado estes 2 já me dá uma boa percentagem de peregrinos ingleses nas contas finais do caminho inglês :D

Não estando cansado, tenho contudo o aspecto de um verdadeiro peregrino de gorro e barba comprida ;)

Hoje já não havia os constrangimentos de re-abastecimento do dia anterior e por isso toca a desforrar e mais à frente num outro bar, “Cruzeiro” (porque estava ao pé de um cruzeiro, digo eu) voltei a encontrar os ingleses com que me havia cruzado nesta manhã.

Altura pra troca de algumas impressões sobre o caminho enquanto aguardávamos pelo serviço.
Paguei pouco mais de 3€ por um sumo pêssego de 33cl e um “bocadilho” de queijo enorme, que parti em 3 pedaços e ainda embrulhei 2 para levar e quando pedi guardanapos, logo vieram com tudo já embrulhado em folha d aluminio ;)
Nessa altura ao balcão, um outro cliente, desta feita um galego, perguntando-me de onde vinha, metia conversa tentando falar em português ou galego. O homem queria mesmo falar em português (não era em galego), contando como havia trabalhado em Portugal durante muitos anos, donde regressara havia mais de sete, de como se enamorara duma moça de Aveiro, onde tinha trabalhado como chefe de pedreiros e de como aí descobrira a sardinha assada, de que ele tanto gostou que da primeira vez comera umas 14… ou 17 :D

Já com os pés de novo no caminho e a pouca distância do bar que acabara de deixar, cruzo-me com uma senhora já com alguma idade que empurrava a sua carrela (que para quem não sabe é um carrinho de mão) cheia de lenha, pois como ela dizia, havia que aproveitar o bom tempo!!!

Mais à frente é com alguma tristeza que passo por uma zona onde estão a cortar um carvalhal, seria para serrar ou para libertar a zona para construir, não sei…

Mas tristezas não pagam dívidas nem encurtam os caminhos, muito pelo contrário… por isso, à que voltar ao reportório e toca a cantar novamente os dois amores, mas com outra letra e… outra música que prá mesma já não havia pachorra ;) e também convinha mudar de repertório com facilidade para não me cansar nem incomodar demasiado os passarinhos… e o “wanderers & nomads” do Johny Clegg (Digging for some words) sempre tinha mais a ver com o espírito do momento :)

A meio duma subida numa recta prolongada, paro a escrever algumas destas notas, quando passam por mim, novamente, os 2 ingleses queixando-se de ser tão longa a etapa! Ficaram mais animados quando lhes disse que faltavam apenas 3 kms… e lá seguiram no seu ritmo!

Estes últimos quilómetros da etapa também não tinham grande história para contar, embora à entrada de Sigueiro a sinalização fosse muito confusa, sendo que acabei por ter de perguntar pelo hostal! Afinal estava quase à porta.

Os 16€ por um quarto privativo (ainda que sem wc), não estavam nada mal! Por isso achei que não compensava estar a ir dormir ao pavilhão gimnodesportivo (afinal já tive a minha experiência e já), ainda por cima que a informação que trazia era a de que este pavilhão era bastante mais frio que o de Betanzos, pelo que não justificava o risco... entretanto chegam os ingleses e ajudo-os a fazer o check-in no hostal… sim que isto de pôr ingleses e espanhóis a falar uns com os outros tem que se lhe diga ;)

Hora para acomodar e tomar banho. Antes da noite chegar, tempo ainda para fazer algumas compras para aliviar a vontade de comer... e procurar por um local de tapas que o Zé Carlos me indicara como ficando junto à igreja! Pensei que desta vez seria fácil, não havia que enganar pois era junto à igreja… mas não aparece igreja nenhuma, mesmo a miúda a quem perguntei não sabia responder!!! Estranho… esta coisa de fazer o caminho todo e só encontrar igrejas fechadas e outras que se escondem para eu não as encontrar ;)

Também não estava para andar muito à procura, dei uma volta para conhecer o centrito. Tive a oportunidade de verificar que o caminho naquela zona estava marcado sim, mas duma maneira que só por acaso é que o encontrava, já que alguns dos azulejos que tem as setas/vieiras que te indicam as direcções, estão colocados bastante a cima do que seria de esperar, ao nível do 1º andar, isto porque são locais em que o r/c não está com o acabamento concluído, algo que se vê muito em Espanha, já que é comum não fazerem a fachada do r/c (parte comercial) ao mesmo tempo do resto da fachada!!!

De regresso ao hostal para uma noite para esquecer… a cama enterra-se a meio, a janela deixa entrar todo o ruído da avenida principal que, apesar de não ser grande, fica integrada numa estrada nacional e para cúmulo com esta alcatifa e ambiente mofoso, alvitraram-se-me as alergias todas :(

domingo, 6 de março de 2011

3ª etapa (Betanzos - Bruma) - Peregrinando até Santiago de Compostela, pelo Camiño (dito) Inglês

3ª Etapa - de Betanzos a Bruma (em 6 de Março de 2011)


Ora estamos no Domingo Gordo mas a etapa de hoje será mais magra que a de ontem e deverá ficar-se pelos 30kms. É claro que se aqui o peregrino tivesse ficado por Miño aí sim teria um Domingo bem gordo com uns prováveis 42kms para percorrer!!!

Contudo, o prato principal deste Domingo de Carnaval iria ser a bolha que tinha ganho naquela etapa alongada, pelo que teria de introduzir uma nuance no planeamento e começar bem cedo esta etapa! Mesmo porque também queria visitar Betanzos, nem que fosse apenas uma vista de olhos assim por alto.


Por isso a alvorada foi às 6:30, para deixar o pavilhão arrumadinho e fazer a visita à cidade ainda antes das 9:00! Tudo muito calminho para não dizer deserto, como seria de esperar a um Domingo a esta hora, ainda por cima na ressaca duma noite de Carnaval... já a primeira coisa aberta que vi foi um quiosque que em boa hora vendia pilhas pois o GPS estava a gastar muito, ou não tivesse também ele uma etapa prolongada de registo no dia anterior, e eu não queria estar a arriscar-me a ficar sem o registo completo!

Como já todos os portugueses devem saber que a notícia corre depressa, em Espanha, é normal encontrar-se “pilas” à venda em qualquer esquina, ou quiosque, e este aqui não é excepção, já os 3,5€ por 4 “pilas”, pode dar azo a muitos comentários sobre a justeza do negócio, mas posso garantir que nem foi do mais caro... o pequeno almoço com “Cola-cao” e um croissant, por sinal muito bom, no “Capitol”, que deve ter andado pelos 2,7€, também não foi um mau negócio para um café situado na praça principal e quase o único aberto neste dia a esta hora.


Xente na rua também não foi fácil encontrar, embora tivesse encontrado na praça uns 2 ou 3 fantasiados, com todos os sinais de restos da noitada e não de uma qualquer família de madrugadores!!!

Deixo para trás, neste inicio da etapa ouço os galináceos com os seus cocorós que dão a vez a aves mais pequenas, sejam aquelas que vulgarmente rotulamos genericamente como passarinhos, sejam outras de um porte superior como um pica-pau! Já um pouco à frente, em Xan Rozo, fiquei agradavelmente surpreendido quando um jovem que, de dentro da sua casa no 1º andar duma tradicional casa em pedra, me vê passar na rua e abre a janela, apenas para me atirar com aquele “Buen Camino”, voltando em seguida a fechar a janela e a regressar aos seus afazeres matinais!!!

Taxi!!! Várias anúncios com um número de telefone, junto aos marcos que sinalizam o caminho, fosse em placa ou em papel colado, sinal de que por aqui, ou o comercio é pró-activo, ou faz mesmo falta aos peregrinos... se pensar-mos que a etapa deveria começar em Miño e não em Betanzos, talvez algumas destas indicações possam já ter sido úteis para alguém menos habituado ao relevo da zona, que para já não é significativo. Mais à frente um outro letreiro anuncia, “Casa Júlia - café-bar - telefone antes de vir...”, humm, café-bar que é preciso que liguem antes de ir, será que é único?! e fechado?!!!


Depois de passar por Luminon, entro numa zona onde se vêem alguns passarões, como uns corvos, um gaio e uma outra gralha qualquer que não sei especificar o título! Depois dessa zona arborizada, passa-se para outra de prados e chegamos a Abegondo, mais especificamente à paróquia de Cos, onde acontece uma cena com um pouco mais de acção do que o normal, que diga-se de passagem, foi sempre sereno. Seguindo em frente no meu caminho deparo-me com alguém, um senhor na casa dos seus 50-60 anos que vindo na minha direcção pára antes de se cruzar comigo e volta para trás. Como o meu passo era mais acelerado que o dele, rapidamente o ultrapasso, tendo ele então a preocupação de me advertir que irei encontrar um cão que me irá ladrar, “anhadindo” por outro lado que o mesmo não faz mal. Agradecendo prossegui o meu caminho, sendo entretanto, um pouco mais à frente, ultrapassado também eu, neste caso por um grupo de ciclistas (ou devo chamar-lhes ciclo-peregrinos?!) que, alguns metros mais à frente, ao passar por um portão se depara com um enorme pastor-alemão que sai lá de dentro a correr, para provocar a confusão geral, com uns a desviarem-se e um outro a ter mesmo de parar. Entretanto o dono do cão já estava por ali a chamar o cão e a ralhar-lhe. Certo é que o bicho tinha um porte de meter respeito e a sair assim naquele repente de certeza que aquele pessoal das 2 rodas deve ter apanhado cá um daqueles sustos, ainda que sem consequências!

Mais à frente foi tempo para fazer uma paragem e verificar que a bolha estava em ordem! Ou seja a bolha estava lá, pois essas coisas não desaparecem assim com duas tretas, foi só mesmo para verificar se a linha estava no sitio e a cumprir a sua tarefa de drenagem ;)


Enquanto ia pensando que compensara vir carregado com os 2 bastões de caminhada, pois já estavam a justificar bem a sua presença, por entre anúncios de bares dos quais não se via nem rastos, entrara já na lógica universal de que um mal maior encobre outras maleitas, já que a bolha tornara-se um espectro perante a maior evidência da fome e sede que estava a sentir, já que o raio do bar, ou café ou loja que fosse, teimava em não aparecer… e eu que pensara que não ia para o meio do deserto, nem sequer para a montanha, pelo que não estava preparado para tantos quilómetros de ausência de comércio ou/de restauração, muito menos depois da experiência dos primeiros dias em que era só pensar nessa necessidade que aparecia logo algo!


Depois de um par de horas de adiamento e uma indicação de restaurante, mas que significava um desvio não quantificado, pela senhora da casa onde fui tentar conseguir mais informações, lá cheguei finalmente ao primeiro e talvez único bar desta etapa do caminho... a tal Casa Júlia que dizia para ligar antes de vir! Afinal revelou-se um café-bar, mas com restaurante e por sinal muito movimentado inclusive com uma sala privada. Toda esta agitação talvez se devesse ao facto de ser Domingo e pudesse ser um daqueles locais mais procurados para esta refeição semanal, ainda para mais não havendo nada aqui à volta. Deu também para comprovar que na Galiza as cascas de amendoim são mesmo para deitar para o chão, já que a zona do bar, que foi onde almocei, estava com o chão repleto de cascas e a clientela que frequenta o restaurante até se veste mais ao menos, pelo que não sendo um qualquer “gourmet” também não é um tascómetro qualquer! Mesmo assim ainda bem que acabei por não seguir a indicação da senhora para fazer o desvio e procurar o bar Zapatero que segundo ela só servia “bocadillos”, pelo menos aqui sempre tem o típico caldo galego e pão da aldeia. Já quanto às “croquetas caseras”, não há muito a dizer pois verdadeiramente só se aproveitou a quantidade!

Agora, quando alguém vos disser que a seguir é que vem a parte pior… acreditem, que pode ser verdade!!! Embora não seja fácil de aceitar, especialmente quando já se traz uns 16kms nas pernas, a verdade é que o tramo mais… tramado, desta etapa, veio em seguida com uma subidinha “filha-da-mãe”, o que é o mesmo que dizer que tive uma sobremesa um bocadinho indigesta. ;) Bem que fui avisado disso por um dos clientes que se encontrava ao balcão do restaurante, todavia achei que o homem podia estar a exagerar, ou então que estivesse habituado a refrear os ânimos de quem chegue a este ponto já com a meta em mente, quando ainda faltava quase outro tanto para a conclusão da jornada. Mas não, pouco depois, ainda com a barriguinha cheia com dois pratos de sopa, “croquetas” (que ainda chegaram para fazer sandes, já que na barriga a lotação estava esgotada) e duas “claras” (equivalente ao nosso “panaché” ou traçado) lá fui dar de caras com a dita subidita...


Custou, não vou negar, mas como é obvio, foi subida ultrapassada, mesmo que para isso tivesse que contar umas 2 ou 3 paragens para recuperar o fôlego e, porque não, para acariciar o animo, que é uma coisa com que também temos de contar e providenciar para nós próprios quando estamos a caminhar a solo! Contar e cantar que é outra coisa que pode ajudar a animar, principalmente se cantarmos para nós próprios, sem espectadores e muito menos críticos ;)

Baixinho (que era para não incomodar os passarinhos… que podiam ficar envergonhados com o seu pio desafinado, perante tal tenor ;) lá fui a cantarolar a popular "eu quero ir para o monte... que no monte é que estou bem",  enquanto a subida ficava para trás e, já em zona de planalto, ia diversificando o reportório ao mesmo tempo que mudava de hemisfério para cantar um "wanderers & nomads...", tudo a condizer :D

Ao fim do dia começo a pensar que este caminho inglês é mesmo pouco calcorreado, a julgar pela quantidade de teias de aranha que ia “apanhando”, muito embora o facto de estar a entardecer ajudar bastante a essa “colheita”!!!


Um pouco antes de Bruma (diria eu que aí a cerca de 1km da aldeia ;) aparece-nos ao caminho uma placa a dizer que há um albergue a… 1km! Como quem diz: não desesperes agora que já não vale a pena!!!

Á entrada da aldeia, a senhora que tomava conta do albergue, viu-me passar e, vá-se lá perceber porquê, reparou que vinha ali peregrino e seguiu-me até ao albergue para me abrir a porta! Pensava eu que iria ficar sozinho mais uma noite, mas afinal já cá se encontrava um dos dois espanhóis sossegados com quem me cruzara, no primeiro albergue, em Neda… Este tinha “rebentado” no restaurante e feito o trajecto até aqui de carro! Já o amigo, peregrino experiente, vinha a pé completando por esse meio a totalidade da etapa, a qual terminou cerca de uma hora depois!

Neste entretanto estivemos, eu e o espanhol que primeiro chegara, a ouvir o responsável pelo albergue, marido da outra senhora, a falar da sua construção, pois era deles a casa antiga, sobre a qual fora erguido este novo edifício de arquitectura moderna, ainda que adaptada à envolvente e à anterior construção. Notava-se o gosto pelo novo edifício (que diga-se de passagem tem boa pinta) e um certo amargor pelas dificuldades sentidas por quem faz a manutenção dum equipamento social, quando tem de lutar com a falta de fundos e, no caso, também da insuficiência no fornecimento, por parte do “Concello” dos artigos necessário ao seu funcionamento como, por exemplo, os lençóis (“sabanas”) descartáveis! Nós como peregrinos de época baixa acabamos por não sentir qualquer uma dessas limitações e beneficiamos mesmo de uma longa conversa, onde fiquei a saber, entre outras coisas que aqui a época alta também começa na semana santa, prolongando-se aí até meados de Setembro… em Dezembro já vêm poucos e Janeiro/Fevereiro ainda menos, sendo esta a fase em que se encontra o albergue, daí que por pouco não pernoite sozinho!… como o señor gostava (muito) de falar, conversou-se um pouco sobre tudo, nomeadamente… futebol e, desta vez,… Mourinho!

Bruma, 23h00… os espanhóis já foram dormir! Dada a hora acho que vou seguir o exemplo, pois aqui a rede é mesmo muito fraca pelo que não vale a pena ir lá para fora tentar ligar à internet… é que está friooo ;)

sábado, 5 de março de 2011

2ª etapa (Neda - Betanzos) - Peregrinando até Santiago de Compostela, pelo Camiño (dito) Inglês

2ª Etapa - de Neda a Betanzos (em 5 de Março de 2011)

As minhas previsões (ainda registadas nas notas do dia anterior), infelizmente, acertaram em cheio… a verdade é que os senhores de Madrid chegaram bem tarde para quem é suposto andar a peregrinar!

Acordo às duas da manhã, ao som duns “manolos” a falar alto e a rir-se, não sei de que “bromas y xistes”, já que estava meio a dormir e não estava a achar piada nenhuma nem a prestar atenção ao que estavam a dizer, mas concerteza não seriam merecedoras do interesse de alguém que estava a descansar para ir percorrer mais uns 30 kms no dia seguinte! A estratégia passou por ignorar e tentar continuar a dormir, enquanto uns se riam e outros pediam silêncio… é claro que quando me levantei me apeteceu ir à cozinha pegar em 2 testos e praticar os meus fracos dotes musicais ao ritmo do malhão, mas isto de ser português e tolerante, tem os seus custos e, por isso, lá me levantei sereno e pronto para o Camiño!


Quem também saiu cedo foram outros 2 espanhóis que haviam chegado no final do dia anterior, mas que presumi como fazendo parte do grupo, por isso estranhei quando os vi a sair ainda antes de mim enquanto os restantes se começavam a levantar, com muitas queixas, não sei se da caminhada do dia anterior se da bebedeira… estes 2 também não tinham achado piada ao comportamento dos seus conterrâneos e quando lhes perguntara se não estavam juntos, lá estava o gracejo: não! nós somos mais sossegados!!! Mais sossegados e com mais sorte, já que os deixaram ocupar o quarto destinado aos “minusválidos” e por isso sempre dormiram melhor que o pobre português que estava na mesma camarata do grupo (conforme me confessaram depois em Bruma).

Deixando para traz o albergue, onde um grupo de espanhóis fazia pela vida para se despertar, mas que me pareceu não iria muito longe naquele dia, segui viagem pela beira da ria por caminhos e passadiços, até entrar verdadeiramente em Neda, na vila, um passeio matinal com algum frio, sim que isto de manhã ainda demora a aquecer, principalmente as mãos! Mas já se vê gente a passear e de fronte para a igrexa local, a tirar a foto da praxe, lá passa um senhor que cumprimenta e informa que depois deverei voltar atrás para apanhar novamente o Camiño. Agradeci amavelmente mas disse-lhe que queria contornar a vila mais perto da ria. Disse que havia sim uma ruela, mas pequena. Lá contornei, cruzei-me com um cão de bom porte que guardava a entrada para umas casas e, mais à frente, vi terminar a vila e começar a ria, mas sem qualquer ruela. Voltei uns metros atrás para constatar que o cão não estava na entrada duma casa mas sim da tal passagem para um caminho alternativo que começava entre-paredes das casas e continuava por detrás dos quintais das outras casas da vila, muito agradável e muito simpático... e o pastor alemão já não estava a tapar a entrada da viela, pelo que não foi preciso pedir-lhe com licença!!!


Saindo de Neda ainda não estamos fora da zona industrial, já que Fene ainda fica junto aos estaleiros navais da Navantia (vê-se o pórtico onde já constou o nome da Astano), mas o Camiño já começa a apresentar outras características, mais “off-road”! A vontade de continuar é bastante e até a ideia de fazer isto para sempre nos sai ao caminho, por entre pensamentos de quem caminha solitário, não fosse o caminhar por si só algo que temos de empreender a solo, mesmo que acompanhados!!! A subida que nos demanda o esforço… a musica que nos emociona, seja pelo conteúdo seja pelo momento… os fluxos cerebrais que se conjugam numa emoção, pelo passado, ou pelo ultrapassado...

Depois de Fene (vila onde existe um Museu do Humor ;) a mudança de cenário é evidente e o sentimento de envolvência rural já está mais presente. Esta ruralidade alivia-nos a crueza dos quilómetros em falta e alenta-nos o passo!


Pouco depois, num local marcado no Google Earth como sendo Romariz, é necessário ter muito cuidado pois já estamos por carreiros e deparamo-nos com uma estrada, pequena, mas com muito fraca visibilidade e que teremos de cruzar confiando no ouvido. Continuando pelo carreiro/estradão, algumas dezenas de metros à frente, passo por um grupo de ciclistas, ou melhor eles é que se cruzam comigo pois vão mais depressa (quase que havia atropelamento involuntário, quando ao chegarem perto o primeiro diz “derecha”, sinal de que me ia passar pela direita, e eu hesitante por pouco não me encostei à “derecha” ;). Isto de irem mais rápido os ciclistas que os caminheiros, se é a norma em plano e descida, nem sempre é assim na subida, já que se ali atrás, no plano, passaram depressa, aqui nesta subida mais acentuada, os da frente não vão mais rápido e este aqui atrás que tem a roda mais “pesada” quase que me deixa alcançá-lo, fosse a subida um pouco mais longa!!!

Em seguida voltei a cruzar algumas estradas e passar uma vez mais pela AP-9, regressando pouco depois à envolvência rural (aldeia de Val?!), por aqui encontro uma casa gira, gira no sentido de que era agradável de se ver, acho que vou tirar o modelo para quando fizer uma casa de campo :-) campo sim que esta zona já tem uns prados… e um cavalo a pastar, o que dispõe sempre bem! Dispôs ainda melhor, um pouco à frente, avistar uma ponte de madeira no limite de um pequeno prado do lado esquerdo do caminho que parece dizer “anda aqui dar uma espreitadela”!!! Como estava a começar a sentir o dedão do pé a chatear, sendo que ainda só ia na manhã do 2º dia de caminhada, a situação não me estava a agradar mesmo nada e por isso era melhor ver o que se passava lá nos confins internos da bota esquerda!


O local para esta paragem não podia ser melhor, com as duas pequenas pontes e os dois murmurantes riachos estava num ambiente muito relaxante, que podia ainda ser melhor não fosse o ruído que comprovava que não estaria muito longe duma estrada movimentada! Feita a primeira vistoria ao pé não encontrei nada de especial, mas a sensibilidade do dedão ao tocar a unha não me deixava nada sossegado, é que podia estar na eminência duma unha encravada, o que seria motivo suficiente para dizer uns quantos palavrões que não vale a pena estar aqui a registar! Assim e a contar com essa possibilidade, lá decidi tratar a unha da melhor maneira que podia e sabia... e tirar uma foto, já que se o meu diagnostico estivesse certo, ficaria com um registo visual da origem do problema :D

Aproveitei a pausa, prolongada com estes cuidados, para descansar mais um pouco e merendar algo do que levava comigo, o que se reduzia a um resto de queijo brie que comprara no dia anterior! Bem, isto dito assim até pode parecer que o peregrino moderno se trata bem e que em vez de pão e água anda a queijo e refrigerantes, mas a verdade é que, para além de eu não andar com refrigerantes, o brie do Lidl que já costuma ser barato, ontem custara só 1€, o que faz do brie uma das coisa mais baratas que se pode comprar… e lá se vai todo o “elan”!!!

É meio-dia na Galiza e como apesar do local ser muito agradável, está um bocadinho de frio, há que voltar a cruzar o campo que nos separa do carreiro e meter pés ao caminho! Entretanto, num dos meus momentos da mais pura genialidade, qual filósofo da antiguidade apresentado a sua doutrina empírica, descubro que a mochila só pesa… à tarde!!! Por esta altura estamos já perto de reencontrar a ria, ali para os lados de San Martiño do Porto, cuja “igrexa” respectiva não está bem no caminho, sendo que para a encontrar, ao chegar à estrada principal, é necessário fazer um desvio de cerca de 150m (para a direita e ao longo dessa estrada com que nos deparamos). Como não é muito desviado e no nosso Porto o São Martinho anda mais por Penafiel, lá fiz o desvio e aproveitei para o ver neste porto.


Deitei uma mirada à igreja, a qual estava fechada (ou seja, menos um carimbo na credencial) e voltei ao Camiño, para me cruzar com umas peregrinas, diria eu que na casa dos 50 anos. Depois de trocar-mos cumprimentos e registos (de onde vínhamos, para onde íamos), lá segui pois nem elas queriam acelerar o seu passo, nem eu queria abrandar o meu e a etapa ainda estava curta!

Da Igreja de São Martinho, é sempre a descer até à praia de Pontedeume, aí então, deu-me vontade de passear na praia e a praia deu-me uma vieira. Imagine-se a praia quase vazia, um casal de namorados e meia dúzia de passeantes a fazer o seu exercício matinal, todos com trajes perfeitamente normais e eis que entra aquele gajo de mochila às costas, botas, gorro casaco e bastões e vai percorrendo a praia no seu passo cadenciado… é obvio que atrai as atenções e o par de namorados até acelera um pouco o passo para mirar o rosto daquele estranho… mas não é nada que nos perturbe! Por outro lado, a praia é muito agradável e vêem-se algumas vieiras na areia e aquela maiorzita, ali a olhar para nós, vai connosco até Santiago e até põe o peregrino a fazer um trocadilho em galego: Pontedeume unha vieira!!!


Saindo da praia voltamos à estrada para atravessar a velha ponte sobre o Eume, donde podemos apreciar melhor a vista da ponte azul (ferroviária) e da cidade que nos aguarda, ambos enquadrados pelo rio/ria pintalgado por um ou outro barquito.


O centro histórico de Pontedeume, é também muito agradável, com a sua Torre dos Andrade e ruas acolhedoras. Junto à torre o mercado e montes de gente e vendedores de rua… até que se avista a Casa do Concello, aberta ao Sábado o que, não deixando de ser surpreendente, é muito bom pois significa: mais um selo institucional :D


Selo posto, barriga a dar horas, desce-se um pouco a rua e entra-se numa padaria onde uma cliente conversa em galego com a senhora que nos atende, curiosas por saber, do peregrino, donde veio e mais desejosa, a cliente, por dar a saber da simpatia que nutria por Portugal (e já agora, porque não, também pelo Cristiano Ronaldo). Cliente que por entre cumprimentos de um bom camiño para o peregrino, lá ficou com a promessa deste de, em seu nome, dar um abraço ao santo.

Cá fora, deambulei à procura de um banco, onde me sentei, ali em frente da entrada da ponte, a comer umas coisitas que acabara de comprar, depois uma pausa na frugal refeição e dirijo-me para o centro da vila para fazer o reconhecimento de alguns dos pontos turísticos. Ao passar novamente pela praça da Casa do Concelho, reparo num grupo folclórico a preparar-se para umas “gaitadas” aproveito a pausa para lhes pedir uma foto de grupo… e outra comigo no grupo ;)


Depois de mais uma pausa para a segunda parte do frugal almoço ainda no centro da vila, começa-se a pensar em sair sem grandes demoras pois já por aí anda uma certa ansiedade pelo que se segue... não que a parte que vinha a seguir merecesse grande cuidado, não… ou pelo menos não, se seguisse pelo Camiño normal! A questão é que se a gente não inventa já nem se sente bem… pelo menos comigo costuma ser assim… e então quando as coisas já são planeadas para quebrar as rotinas, aí é que não há nada a fazer, é mesmo para quebrar!!!

O plano era visitar a Igrexa Românica de San Miguel de Breamo, uma pequena igreja de arquitectura medieval, mas com muito “boa pinta” e ainda por cima no topo de um monte (ora, palavra que disseste). É claro que ir pela estrada a fazer grandes curvas como faz uma pessoa normal, não estava nesses planos e muito menos depois de ter andado a pesquisar pelo Google Earth as imediações e ter descortinado algo que se parecia com um trilhozinho ali pelo meio da vegetação!

Para não dar uma de gajo e meter-me por caminhos sem perguntar direcções, lá perguntei, por descargo de consciência, qual seria o caminho mais directo para chegar ao sítio. Resposta: há uma estrada que vai lá dar e que sim, seria o caminho mais directo. Hum! Resposta errada, não fazia parte das respostas que o meu cérebro pudesse processar como aceitável! Por isso, toca de seguir a estrada até ao ponto em que havia marcado no GPS, seguir por uma estrada local até virar à esquerda numa estrada sem saída, de acesso a umas moradias e onde deveria encontrar um estradão… ou então voltar para trás e deixar de me armar em esperto!


Chegado à última vivenda, a qual tinha umas vistas espectaculares sobre a ria, não foi difícil perceber que, pelo menos, a coisa não terminava ali! Faltava era saber se não me iria meter na mata e andar aos esses até ir dar, a um ponto qualquer, a 200m do local de partida… algo que deve constar sempre do nosso cardápio de possibilidades quando nos metemos por novos, ainda que velhos, trilhos.

Logo que comecei a percorrer o estradão, reparei que, no meio deste, existia um caminho empedrado que tinha todo o aspecto de já ali estar há muito tempo, como não havia indícios de que alguém pudesse querer pavimentar tal local apenas por desporto, lá me convenci de que só podia estar no trilho certo e que aquela subida toda que cada vez me custava mais só ia acabar no objectivo San Miguel de Breamo! Bem, a verdade é que a vantagem de se andar com GPS é que as dúvidas são menores e temos sempre aquele companheiro electrónico a dizer-nos “vês! Estás a ir na direcção certa”!!!


Bem, não adianta esconder a excitação que se sente, principalmente depois duma valente suadela) ao ver aparecer aquela clareira e a placa a dizer que a meta estava mesmo ali ao alcance da vista!!! Olhar para trás e pensar, este já cá canta :D e depois pensar na frase “dando novos mundos ao mundo” e substitui-la por “dando velhos caminhos ao Camiño” ;)

A verdade é que não sei se este trilho faria, ou não, parte dum antigo tramo do Camiño, utilizado por todos aqueles que na sua peregrinação fizessem este desvio que parece óbvio, dada a beleza da pequena Igrexa e a sua localização… tudo leva a crer que assim seja! O que não há dúvidas mesmo, é que é um trajecto mais directo (o que indicia que também seja mais puxadito ;) e acima de tudo, mais autêntico do que seguir uma estrada de alcatrão!!!

Ora bem, fazer isto tudo sem no final levar uma foto nossa no local, também não está bem, por isso, depois de dar a voltinha à Igrexa e ter constatado que também não era aqui que ia entrar num local de culto, lá comecei a pensar num enquadramento que me permitisse ficar bem na foto! É claro que no local onde eu queria, não havia nada onde apoiar a câmara! Ainda tentei num pequeno pilarete mas a única coisa que apanhei foi um bom pedaço de céu, quando a câmara caiu!!!


Andava eu nestes arranjos, quando vejo chegar ao local um citröen vermelho… num local assim deserto, mesmo num sábado à tarde, fica sempre a pergunta do que faria aquele carro ali! Vê-se sair de lá de dentro 2 fulanos, ambos adultos (mas pelas idades talvez pai e filho) e com eles um cachorro, pelo que a presumida resposta à pergunta, que não foi colocada a quem de direito, é que estariam a passear o cão! O que me interessava mesmo naquela altura era uma alma para tirar o raio da foto… e para isso, bastou pedir!!! O raio da foto é que teimava em não sair direito e acabei por me resignar às fotos que o senhor amavelmente tentara enquadrar… era nestas alturas que perguntava porque é que não tinha trazido uma máquina decente, mas era dúvida que não pairava durante muito tempo, assim que sentia o peso da mochila nas costas aquilo dissipava-se logo, logo ;-)


A descida do monte é feita em direcção a Santiago, infelizmente as vistas abertas de onde se pode ver a paisagem da ria, não são muitas (eucaliptos a mais), mas ainda assim existe um local com um prado de tamanho razoável que permite ter uma belíssima perspectiva da ria até A Coruña, conseguindo-se ver mesmo a Torre de Hércules!


Toda esta parte continua a ser feita fora do trilho dito oficial, ou seja sem marcas de vieiras ou setas amarelas! Mas aproxima-se uma vila e é tempo de descansar um pouco e repor mantimentos. Em Perbes (pelo menos era esse o nome da estação de comboio que lá estava, embora estivesse marcado no mapa como lugar de Vilanova e Igrexa de S. Joam) já num local com várias casas e uma daquelas típicas mercearias/café onde se pode comprar algumas coisas também típicas como madalenas e iogurtes líquidos de litro, “típicas” de Espanha ;-)

Aqui neste cafe-bar com mesas e cadeiras daquelas tipo fórmica, tão comuns também no nosso Portugal há uns anos atrás e ainda um pouco por aí espalhadas, encontra-se também o não menos típico “capeamento” de cascas de amendoim, que vim a comprovar mais tarde que não é caso isolado, pelo menos neste canto do reino ;-) Pelo vistos aqui é comum deitar-se as cascas de amendoim para o chão e parece não incomodar ninguém! Pela hora, ausência de clientes e quantidade de cascas no chão junto do balcão, fiquei na dúvida se seriam do dia anterior ou se esta malta começa cedo a tomar umas bejekas acompanhadas deste “marisco dos pobres” ou se o local teria sido concorrido à hora do almoço e a senhora estivesse à espera duma pausa, ainda mais descontraída para não deixar acumular com a leva nocturna que com certeza traria mais elementos crocantes ao pavimento!!!

Outra coisa característica deste bar e que também não nos deixa saudades é a TV ligada a dar… telenovela, isso sim em castelhano, para não pensarmos que estamos em Portugal!!! Com a TV em altos berros a gente pensa cá com os nossos botões... serão surdos?... Bem pelo menos para fazer contas e pôr carimbo, não houve problemas de audição, assim que toca a caminhar.

Bem, neste ponto já os pontos no GPS estão referenciados como Miño1,2,3… o que quer dizer que estará para breve o fim do desvio em relação ao trilho comum e que voltaremos a ver água da ria não tarda nada. Neste caso ria de Betanzos!!!


Entrando em Miño encontra-se uma daquelas casas curiosas feitas com partes dum navio num terreno junto dum braço de rio e logo depois a estrada segue em recta junto ao areal e ao respectivo passeio pedonal arborizado por onde se avista uma ou outra alma em busca de um pouco de exercício.

Miño é a última localidade onde existe um albergue de peregrinos, já que o próximo só em Bruma a cerca de… 40kms!


Bem a ideia é ficar a dormir fora de hotéis e pensões, por isso surge a dúvida, ficar aqui, terminando esta etapa com apenas 26 kms e amanhã fazer uma etapa de 38kms, ainda por cima dizem que a próxima etapa é a mais desgastante em termos de desníveis, ou então tentar alojamento em Betanzos, que segundo o guia que arranjei dista 8 kms de Miño, o que dado o cansaço acumulado significará cerca de mais 2-3 horas.


Sentado no muro olhando a Ria de Betanzos, decido telefonar para a “Proteccíon Civil” de Betanzos que segundo a informação dos manolos do albergue de Neda estava receptiva a dar alojamento no pavilhão gimnodesportivo local… falei com alguém que se mostrou totalmente receptivo a que seguisse para lá, bastaria ligar para aquele número assim que lá chegasse que ele abriria o pavilhão. Bem tudo indica que irei passar a noite de sábado de Carnaval num pavilhão gimnodesportivo em Betanzos :-)


Cinco da tarde, num miradouro colorido sobre a estação de comboio de Miño, contemplo a ria e decido fazer uma inspecção ao pé direito que já há uns quilómetros me vinha a incomodar com uma pequena picada no calcanhar :-S Não se vê nada mas por via das dúvidas toca a hidratar o pé já que foi para isso que vim carregado com o creme!!!


Saindo de Miño junto ao rio Lambre até à Ponte do porco onde, ali ao lado, existe uma estátua do dito com a cruz de Andrade em cima… bem não está na altura para curiosidades, estamos em Março e não deverá haver mais do que 2 horas de dia pelo que já deverei chegar a Betanzos com o lusco-fusco senão mesmo com a noite! Atravessando a ponte seguimos à esquerda, para sul, subindo um pouco até alcançar um parque infantil (que me traz algumas recordações ;-) numa zona calma que por sinal cobre literalmente um tramo da auto-estrada...


Os quilómetros vão passando, menos 4 desde Miño, no entanto o novo trilho introduzido no GPS aquando do parque infantil, regista ainda mais de 8 até ao destino… estranho, pensei cá com os meus botões: “deve ser problema do trilho, deve estar a terminar depois de Betanzos”… a noite vai caindo, passa das 7 da tarde e o pé vai “picando” cada vez mais por isso sigo mais lento e já não dá para fazer os 4km/h que desejaria… por volta das 20h já vai escurecendo bem… Praticamente 8kms já decorridos desde Miño e nada de luzes de Betanzos, é uma cidadezinha, não devia estar tão “escondida”! Consulto o GPS, custa-me a aceitar mas o certo é que a informação está mesmo errada e não vão ser 8kms entre Miño e Betanzos, apetece-me praguejar… praguejo mesmo… bolas que lá se foi o plano de não terminar muito tarde… bem com um jeitinho quando chegar a Betanzos estão todos a festejar o Carnaval :-D


De Miño a Betanzos, são 12kms (e não 8kms, raio de medidores, foram por alguma estrada directa em vez de seguirem o trajecto do peregrino???), ou seja etapa do 2º dia de Neda a Betanzos ficou-me em 38kms e uma bolhinha no pé, bem por baixo do calcanhar, bonito, bolhinha para me fazer companhia durante mais 3 dias, bonito mesmo!!!

Cerca das 21h às portas da cidade velha, sim, cansado mesmo… recuperar o fôlego e ligar para a “Proteccíon Civil”, para descobrir que ainda não está! Há que andar mais um pouco até ao pavilhão que pelas indicações deve ficar do outro lado da vila!


Diabos, para hoje já chegava!!! Depois de perguntar umas 2 ou 3 vezes onde ficava o pavilhão, a última na esquadra local onde ainda tive de esperar que o agente de serviço resolvesse um problema com uns locais, antes de me atender para informar que era sempre em frente, lá encontrei o voluntário que já lá estava à minha espera e abriu a porta das minhas instalações privativas :-D ou quase pois ainda ficaria por lá uma malta que estaria a jogar qualquer coisa que não me recordo bem o que era!

Fez a visita guiada aos aposentos, o meu quarto, autentica “suite real” já que como era o ginásio do boxe e taekwondo tinha direito a um piso mais confortável do que se ficasse no pavilhão principal onde o chão é durinho, por outro lado, os dias tem sido agradáveis, solarengos sem serem quentes em demasia, mas as noites ainda são bem “frescas” pelo que uma sala mais pequena nunca se torna tão fria ;-)

Aqui algumas coisas não falham e o voluntário além de vir prevenido com a chave do pavilhão, vinha já preparado com o inevitável carimbo que comprovará que eu sou mesmo cumpridor!!!

Fiquei com as chaves do pavilhão, não fosse apetecer-me ir “correr” o Carnaval ;-) e depois quisesse regressar. Fiquei com a indicação de onde devia deixar as chaves no dia seguinte quando abalasse, despedimo-nos e lá fiquei eu a duchar-me (num balneário só para mim… escusado será dizer que por isso temos banho quente em sala fria ;-) a instalar-me e à procura de tomadas noutras salas e arrecadações onde pudesse carregar baterias, telemóveis, mp3 e GPS… tanta tecnologia que o peregrino traz com ele!!!

Bem, já vi que a estadia nas instalações é gratuita, agora só falta dar uns murros nos sacos de pancada que é para não perder a oportunidade de desfrutar deste equipamento todo e toca a recolher ao saco-cama :-)